OBAMA
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Era uma vez um negro numa latrina, um negro ajoelhado na poça do próprio sangue, um negro com as marcas de tortura da Ku-Klux-Klan... Seu bisavô viera em ferros num tumbeiro, entre fezes e podridão dos corpos mortos ao lado. Seu avô trabalhara no algodão, cantando suas dores em spirituals e blues. Seu pai, um dia viu os negros marchando com Luther King, e resolveu marchar... Num tempo em que até olhar para um branco podia ser crime ou razão pra tortura, aquele negro viu King orar pelo sonho. Usou suas muletas, porque seus pés estavam feridos. Hoje aquele negro está velhinho, tuberculoso e arqueado, não pode mais sair de casa. Mas quando seu filho negro saiu pra votar ontem, numa seção do Harlem, levou as tintas do seu sangue, levou os gritos da sua alma, levou os calos das suas mãos, levou as lágrimas de seus spirituals, as saudades dos seus blues, levou na carteira uma foto de King. O jovem negro foi. Mas quinhentos anos de história foram com ele. Na seção eleitoral, a caneta tinha muitas mãos. Os gemidos de outras eras, ali, eram orgulho e alegria. O jovem cravou Obama. Quando voltou à casa, contou, entre lágrimas, sua aventura na história. O pai, sorriu. Então fechou os olhos, e se foi.
Não sei se dará certo, não sei se fará todas as diferenças positivas que se esperam. É expectativa demais sobre um só homem. Mas um papel essa eleição cumpriu. Mostrou a vitória do sonho de Luther King. O pastor batista, com sua fé, seu destemor, sua oração. King e sua lição de perseverança, com seu sangue regou as sementes da esperança de todos os negros. O síbolo serve não só aos Estados Unidos. Serve ao Brasil. Serve ao mundo, como vimos. Houve fogueiras de festa no Quênia. Espero que os meninos do CRIAM, a quem tenho contado essas histórias, tenham assistido à TV. Amanhã falaremos disso, novamente. Sonhos se realizam. Importa é estar disposto a pagar as dores da semeadura.
Que Deus abençoe Obama. Não me iludo com mudanças radicais, transformações de água em vinho. Mas agradeço ao símbolo, ainda precisamos de símbolos. Todos sabem como acho péssimo o governo Lula, do ponto de vista do que se esperava e não fez. Muitos sabem que não votei nele, depois de tantos anos de militância de esquerda. É que não queria que sequestrasse meus sonhos, como fez com os de tantos, reféns de um projeto mudado, que não era aquele em que se tinham engajado. Mas é claro que um ex-torneiro-mecânico, retirante, que fala "probrema", é um signo e oferece alguma forma de esperança. Fica bem à biografia do país e da humanidade. Símbolos. Nos ajudam a caminhar. Não deixam de ser pedaços de aurora.
Espero que os americanos lembrem de onde tudo começou. Começou com um culto na igreja batista onde Rosa Parks foi motivo para oa organização do boicote dos ônibus que discriminavam negros. Começou com joelhos no chão, pedindo forças a Deus. Que assim continue.



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Escrito por Denilson Cardoso de Araújo às 08h48